O quarto cômodo foi possivelmente o mais perturbador. Assim que eu
fechei a porta, toda a luz pareceu ser sugada para fora e colocada no
quarto anterior. Eu fiquei ali, rodeado pela escuridão, e não conseguia
me mexer. Não tenho medo do escuro, e nunca tive, mas eu estava
absolutamente aterrorizado. Toda a minha visão tinha me deixado. Eu
ergui minha mão na frente do meu rosto e se eu não soubesse que tinha
feito isso, nunca seria capaz de contar. Não conseguia ouvir nada.
Estava um silêncio mortal. Quando você está em uma sala à prova de som,
ainda é capaz de se ouvir respirar. Você consegue ouvir a si mesmo estar
vivo. Eu não podia. Comecei a tropeçar depois de alguns momentos, a
única coisa que eu podia sentir era meu coração batendo rapidamente. Não
havia nenhuma porta à vista. Eu não tinha nem sequer certeza se havia
uma porta mesmo. O silêncio foi quebrado por um zumbido baixo.
Senti
algo atrás de mim. Vire-me bruscamente mas mal conseguia ver meu nariz.
Mas eu sabia que era lá. Independentemente do quão escuro estava, eu
sabia que tinha algo lá. O zumbido ficou mais alto, mais perto. Parecia
me cercar, mas eu sabia que o que quer que estivesse causando o barulho,
estava na minha frente, se aproximando. Dei um passo para trás, eu
nunca tinha sentido esse tipo de medo. Eu realmente não consigo
descrever o verdadeiro medo. Não estava nem com medo de morrer, mas sim
do modo que isso ia acontecer. Tinha medo do que a coisa reservara para
mim. Então as luzes piscaram por menos de um segundo e eu vi. Nada. Eu
não vi nada e eu sei que eu não vi nada lá. O quarto estava novamente
mergulhado na escuridão, e o zumbido era agora um guincho selvagem. Eu
gritei em protesto, não conseguiria ouvir o barulho por mais um maldito
minuto. Eu corri para trás, longe do barulho, e comecei a procurar pela
maçaneta. Me virei e cai dentro do quarto 5.
Antes que eu
descreva o quarto 5, você deve entender algo. Eu não sou um viciado.
Nunca tive história de abuso de drogas ou qualquer tipo de psicoses além
das alucinações na minha infância que eu já mencionei, e elas eram
apenas quando eu estava realmente cansado ou tinha acabado de acordar.
Eu entrei na Casa sem Fim limpo.
Depois de cair do quarto
anterior, minha visão do quinto quarto foi de costas, olhando pro teto. O
que eu vi não me assustou, apenas me surpreendeu. Árvores tinha
crescido no quarto e se erguiam acima da minha cabeça. O teto desse
quarto era mais alto que os outros, o que me fez pensar que eu estava no
centro da casa. Me levantei do chão, me limpei e olhei ao redor. Era
definitivamente o maior quarto de todos. Eu sequer conseguia ver a porta
de onde eu estava, os vários arbustos e árvores devem ter bloqueado a
minha linha de visão da saída. Nesse momento eu notei que os quartos
estavam ficando mais assustadores, mas esse era um paraíso em comparação
ao último. Também assumi que o que estava no quarto quatro ficou lá. Eu
estava incrivelmente errado.
Conforme eu andava, comecei a
ouvir o que se poderia ouvir em uma floresta, o barulho dos insetos se
movendo e dos pássaros voando pareciam ser as minhas únicas companhias
nesse quarto. Isso foi o que mais me incomodou. Eu podia ouvir os
insetos e os outros animais, mas não conseguia vê-los. Comecei a me
perguntar quão grande essa casa era. De fora, quando eu caminhei até
ela, parecia como uma casa normal. Era definitivamente na maior parte da
casa, já que tinha quase uma floresta inteira. A abóbada cobria minha
visão do teto, mas eu assumi que ele ainda estava lá, por mais alto que
fosse. Eu também não via nenhuma parede. A única maneira que eu sabia
que ainda estava dentro da casa era por causa do chão compatível com o
dos outros quartos, pisos escuros de madeira. Continuei andando na
esperança que a próxima árvore que eu passasse revelaria a porta. Depois
de alguns momento de caminhada, senti um mosquito no meu braço. O
espantei e continuei. Um segundo depois, senti cerca de dez mais deles
em diferentes lugares da minha pele. Senti eles rastejarem para cima e
para baixo nos meus braços e pernas, e algum deles foram para o meu
rosto. Eu me agitava freneticamente para espantá-los mas eles
continuavam rastejando. Eu olhei para baixo e soltei um grito abafado,
mais um ganido, para ser honesto. Eu não vi um único inseto. Nenhum
inseto estava em mim, mas eu conseguia senti-los. Eu ouvia eles voando
pelo meu rosto e picando a minha pele, mas não conseguia ver um único
inseto. Me joguei no chão e comecei a rolar descontroladamente. Eu
estava desesperado. Eu odiava insetos, especialmente os que eu não
conseguia ver ou tocar. Mas eles conseguiam me tocar, e estavam por toda
parte.
Eu comecei a rastejar. Não tinha ideia para onde estava
indo, a entrada não estava a vista, e eu ainda não tinha visto a saída.
Então eu apenas rastejei, minha pele se contorcendo com a presença
desses insetos fantasmas. Depois do que pareceu horas, eu achei a porta.
Agarrei a árvore mais próxima e me apoiei nela, eu dava tapas nos meus
braços e pernas, sem sucesso. Tentei correr mas não conseguia, meu corpo
estava exausto de rastejar e lidar com o que quer que estivesse no meu
corpo. Eu dei alguns passos vacilantes até a porta, me segurando em cada
árvore para me apoiar. Estava a poucos passos da porta quando eu ouvi. O
zumbido baixo de antes. Estava vindo do próximo quarto, e era mais
profundo. Eu podia quase senti-lo dentro do meu corpo, como quando você
está do lado de um amplificador em um show. O sensação dos insetos em
mim diminuiu quando o zumbido ficou mais alto. Assim que eu coloquei a
mão na maçaneta, os insetos se foram completamente, mas eu não conseguia
girar a maçaneta. Eu sabia que se eu soltasse, os insetos voltariam, e
eu não voltaria para o cômodo quatro. Eu apenas fiquei ali, minha cabeça
pressionada contra a porta marcada 6, minha mão trêmula segurando a
maçaneta. O zumbido era tão alto que eu não conseguia nem me ouvir
fingir pensar. Eu não podia fazer nada além de prosseguir. O quarto 6
era o próximo, e ele era o inferno.
Fechei a porta atrás de mim,
meus olhos fechados e meus ouvidos zunindo. O zumbido me rodeava. Assim
que a porta fechou, o zumbido se foi. Abri meus olhos e a porta que eu
fechei sumira. Era apenas uma parede agora. Olhei em volta em choque. O
quarto era idêntico ao terceiro, a mesma cadeira e lâmpada, mas com a
quantidade de sombras corretas dessa vez. A única real diferença é que a
porta de saída, e a que eu vim, tinham sumido. Como eu disse antes, eu
não tinha problemas anteriores nos termos de instabilidade mental, mas
no momento eu sentia como se estivesse louco. Eu não gritei. Não fiz um
som. No começo eu arranhei suavemente. A parede era resistente, mas eu
sabia que a porta estava lá, em algum lugar. Eu apenas sabia que estava.
Arranhei onde a maçaneta estava. Arranhei a parede freneticamente com
ambas as mãos, minhas unhas começaram a ser lixadas pela parede. Cai
silenciosamente de joelho, o único som no quarto era o incessante
arranhar contra a parede. Eu sabia que estava lá. A porta estava lá, eu
sabia que estava apenas lá, sabia que se eu pudesse passar pela parede-
"Você está bem?"
Pulei
do chão e me virei rapidamente. Me encostei contra a parede atrás de
mim e vi o que falou comigo, e até hoje eu me arrependo de ter me
virado.
A garotinha usava um vestido branco que descia até seus
tornozelos. Ela tinha longos cabelos loiros que desciam até o meio das
suas costas, pele branca e olhos azuis. Ela era a coisa mais assustadora
que eu já tinha visto, e eu sei que nada na vida será tão angustiante
como o que eu vi nela. Enquanto eu a olhava, eu via a jovem menina, mas
também via algo mais. Onde ela estava eu vi o que parecia com um corpo
de um homem maior do que o normal e coberto de pelos. Ele estava nu da
cabeça ao dedão do pé, mas sua cabeça não era humana, e seus pés eram
cascos. Não era o diabo, mas naquele momento poderia muito bem ter sido.
Sua cabeça era a cabeça de um carneiro e o focinho de um lobo. Era
horrível, e era como a menininha a minha frente. Eles tinham a mesma
forma. Eu não consigo realmente descrever, mas eu via os dois ao mesmo
tempo. Eles compartilhavam o mesmo lugar do quarto, mas era como olhar
para duas dimensões separadas. Quando eu olhava a menina, eu via a
coisa, e quando eu olhava a coisa, eu via a menina. Eu não conseguia
falar. Eu mal conseguia ver. Minha mente estava se revoltando contra o
que eu tentava processar. Eu já tive medo antes na minha vida, e eu
nunca tinha estado mais assutado do que quando fiquei preso no quarto 4,
mas isso foi antes do sexto. Eu apenas fiquei ali, olhando para o que
quer que fosse que falou comigo. Não havia saída. Eu estava preso lá com
aquilo. E então ela falou de novo.
"David, você deveria ter ouvido"
Quando
aquilo falou, eu ouvi palavras da menina, mas a outra coisa falou atrás
da minha mente numa voz que eu não tentarei descrever. Não havia nenhum
outro som. A voz apenas continuava repetindo a frase de novo e de novo
na minha mente, e eu concordei. Eu não sabia o que fazer. Estava ficando
louco e ainda assim eu não conseguia tirar os olhos do que estava na
minha frente. Cai no chão. Pensei que tinha desmaiado, mas o quarto não
deixaria isso acontecer. Eu apenas queria que isso terminasse. Eu estava
de lado, meus olhos bem apertos e a coisa olhando pra mim. No chão na
minha frente estava correndo um dos ratos de brinquedo do segundo
quarto. A casa estava brincando comigo. Mas por alguma razão, ver esse
rato fez a minha mente voltar de onde quer que ela estivesse, e olhar ao
redor do quarto. Eu sairia de lá. Estava determinado a sair daquela
casa e nunca mais pensar sobre ela novamente. Eu sabia que esse quarto
era o inferno e não estava pronto para ficar lá. No começo apenas meus
olhos se moviam. Eu procurava nas paredes por qualquer tipo de abertura.
O quarto não era muito grande, então não demorou muito para que eu
checasse tudo. O demônio continuava zombando de mim, a voz cada vez mais
alta como a coisa parada lá. Coloquei minha mão no chão e fiquei de
quatro, e voltei a explorar a parede atrás de mim. Então eu vi algo que
eu não podia acreditar. A coisa estava agora diretamente nas minhas
costas, sussurrando como eu não deveria ter vindo. Eu senti sua
respiração na minha nuca, mas me recusei a me virar. Um grande retângulo
foi riscado na madeira, com um pequeno entalhe no meio dele. E bem em
frente aos meus olhos eu vi um 7 que eu tinha inconscientemente feito na
parede. Eu sabia o que era. Quarto 7 estava bem onde o quarto 5 estava a
momentos atrás.
Eu não sabia como eu tinha feito aquilo, talvez
tenha sido apenas o meu estado no momento, mas eu tinha criado a porta.
Eu sabia que tinha. Na minha loucura eu tinha riscado na parede o que eu
mais precisava, uma saída para o próximo quarto. O quarto 7 estava
perto. Eu sabia que o demônio estava bem atrás de mim, mas por alguma
razão, ele não conseguia me tocar. Fechei meus olhos e coloquei ambas as
mãos no grande 7 na minha frente. E empurrei. Empurrei o mais forte que
pude. O demônio agora gritava nos meus ouvidos. Ele e dizia que eu
nunca iria embora. Me dizia que esse era o fim, mas que eu não iria
morrer, eu iria ficar lá no quarto 6 com ele. Eu não iria. Empurrei e
gritei com todo o meu fôlego. Eu sabia que alguma hora eu iria
atravessar a parede. Cerrei meus olhos e gritei, e então o demônio se
foi. Eu fui deixado no silêncio. Me virei lentamente e fui saudado com o
quarto estando como estava quando eu entrei, apenas uma cadeira e uma
lâmpada. Eu não podia acreditar nisso, mas não tive tempo de me
habituar. Me virei para o 7 e pulei levemente para trás. O que eu vi foi
uma porta. Não a que eu tinha riscado lá, mas uma porta normal com um
grande 7 nela. Todo o meu corpo tremia. Me levou um tempo para girar a
maçaneta. Eu apenas fiquei lá, parado por um tempo, encarando a porta.
Eu não podia ficar no quarto 6, não podia. Mas se isso foi apenas o
quarto 6, não conseguia imaginar o que me aguardava no 7. Devo ter
ficado lá por uma hora, apenas olhando para o 7. Finalmente, respirei
fundo e girei a maçaneta, abrindo a porta para o quarto 7.
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