Cambaleei através da porta mentalmente exausto e fisicamente fraco. A
porta atrás de mim se fechou, e eu me toquei de onde estava. Eu estava
fora. Não fora como no quarto 5, eu estava realmente lá fora. Meus olhos
ardiam. Eu queria chorar. Cai de joelhos e tentei, mas não consegui. Eu
estava finalmente fora daquele inferno. Nem sequer me importava com o
prêmio que foi prometido. Me virei e vi que porta que eu tinha acabado
de atravessar era a entrada. Andei até o meu carro e dirigi para casa,
pensando em o quão bom seria tomar um banho.
Assim que cheguei em
casa, me senti desconfortável. A alegria de deixar a Casa Sem Fim tinha
sumido, e um temor crescia lentamente em meu estômago. Parei de pensar
nisso e fiz meu caminho para a porta da frente. Entrei e imediatamente
subi para o meu quarto. Eu entrei lá e na minha cama estava meu gato
Baskerville. Ele foi a primeira coisa viva que eu vi aquela noite, e fui
fazer carinho nele. Ele sibilou e bateu na minha mão. Recuei em choque,
ele nunca tinha agido assim. Eu pensei "tanto faz, ele é um gato
velho". Fui para o banho e me aprontei para o que eu esperava ser uma
noite de insônia.
Depois do meu banho, fui cozinhar algo. Desci
as escadas e me virei para a sala de estar, e vi o que ficaria para
sempre gravado em minha mente. Meus pais estavam deitados no chão, nus e
cobertos de sangue. Foram mutilado ao ponto de estarem quase
identificáveis. Seus membros foram removidos e colocados do lado dos
seus corpos, e suas cabeças em seus peitos, olhando para mim. A pior
parte eram suas expressões. Eles sorriam, como se estivessem felizes em
me ver. Vomitei e comecei a chorar lá mesmo. Eu não sabia o que tinha
acontecido, eles nem sequer moravam comigo. Eu estava confuso. E então
eu vi. Uma porta que nunca esteve lá antes. Uma porta com um grande 8
riscado com sangue nela.
Eu continuava na casa. Estava na minha
sala de estar, mas ainda assim, no quarto 7. O rosto dos meus pais
sorriram mais assim que eu percebi isso. Eles não eram meus pais, não
podiam ser. Mas pareciam exatamente como eles. A porta marcada com um 8
estava do outro lado, depois dos corpos mutilados na minha frente. Eu
sabia que tinha que continuar, mas naquele momento eu desisti. Os rostos
sorridentes acabaram comigo, me seguravam lá onde eu estava. Vomitei
novamente e quase entrei em colapso. E então, o zumbido voltou. Estava
mais alto do que nunca, enchia a casa e tremia as paredes. O zumbido me
obrigou a andar. Comecei a andar lentamente, indo em direção a porta e
aos corpos. Eu mal conseguia ficar em pé, ainda mais andar, e quanto
mais perto eu ia dos meus pais, mais perto do suicídio eu estava. As
paredes agora tremiam tanto que parecia que desmoronariam, mas ainda
assim os rostos sorriam para mim. Cada vez que eu me movia, os olhos me
seguiam. Agora eu estava entre os dois corpos, a alguns metros da porta.
As mãos desmembradas rastejaram em minha direção, o tempo todo os
rostos continuavam a me olhar fixamente. Um novo terror tomou conta de
mim e eu andei mais rápido. Eu não queria ouvir eles falarem. Não queria
que as vozes fossem iguais a dos meus pais. Eles começaram a abrir suas
bocas, e agora as mãos estavam a centímetros dos meus pés. Em um
movimento desesperado, corri até a porta, a abri, e bati com ela atrás
de mim. Quarto 8.
Eu estava farto. Depois do que acabara de
acontecer, eu sabia que não tinha mais nada que essa porra de casa
pudesse ter que eu não pudesse sobreviver. Não havia nada além do fogo
do inferno que eu não estava preparado. Infelizmente eu subestimei as
capacidades da Casa Sem Fim. Infelizmente, as coisas ficaram mais
perturbadoras, mais terríveis e mais indescritíveis no quarto 8.
Eu
continuo tendo dificuldade me acreditar no que eu vi na sala 8. De
novo, o quarto era uma cópia do quarto 6 e 4, mas sentado na cadeira
normalmente vazia, estava um homem. Depois de alguns segundos de
descrença, minha mente finalmente aceitou o fato de que o homem sentado
lá era eu. Não alguém que parecia comigo, ele era David Williams. Me
aproximei. Eu tinha que dar uma olhada melhor, mesmo tendo certeza
disso. Ele olhou para mim e notei lágrimas em seus olhos.
"Por favor.... por favor, não faça isso. Por favor, não me machuque."
"O que?" Eu disse. "Quem é você? Eu não vou te machucar."
"Sim,
você vai" Ele soluçava agora. "Você vai me machucar e eu não quero que
você faça isso." Ele colocou suas pernas para cima na cadeira e começou a
se balançar para frente e para trás. Foi realmente bem patético de
olhar, principalmente por ele ser eu, idêntico em todos os sentidos.
"Escute,
quem é você?" Eu estava agora apenas a alguns metros do meu
doppelganger. Foi a mais estranha experiência que eu tive, estar lá
falando comigo mesmo. Eu não estava assustado, mas ficaria logo. "Por
que você-?"
"Você vai me machucar, você vai me machucar, se você quer sair você vai me machucar"
"Por
que você está falando isso? Apenas se acalme, certo? Vamos tentar
entender isso e-" E então eu vi. O David sentado lá estava usando as
mesmas roupas que eu, exceto por uma pequena mancha vermelha bordada em
sua camisa com um número 9"
"Você vai me machucar, você vai me machucar, não, por favor, você vai me machucar..."
Meus
olhos não deixaram o pequeno número no seu peito. Eu sabia exatamente o
que era. As primeiras portas foram simples, mas depois elas ficaram
mais ambíguas. 7 foi arranhada na parede pelas minhas próprias mãos. 8
foi marcada com o sangue dos meus pais. Mas 9 - esse número era uma
pessoa, uma pessoa viva. E o pior, era uma pessoa que parecia exatamente
comigo.
"David?" Eu tive que perguntar.
"Sim... você vai
me machucar, você vai me machucar..." Ele continuo a soluçar e a se
balançar. Ele respondeu ao David. Ele era eu, até a voz. Mas aquele 9.
Eu andei por alguns minutos enquanto ele chorava em sua cadeira. O
quarto não tinha nenhuma porta, e assim como o 6, a porta da qual eu vim
tinha sumido. Por alguma razão, eu sabia que arranhar não me levaria a
nenhum lugar dessa vez. Estudei as paredes e o chão em volta da cadeira,
abaixando a minha cabeça e vendo se tinha algo embaixo dela.
Infelizmente, tinha. Embaixo da cadeira tinha uma faca. Junto com ela
tinha uma nota onde se lia: Para David - Da Gerência.
A sensação
em meu estômago quando eu li a nota foi algo sinistro. Eu queria
vomitar, e a última coisa que eu queria fazer era remover a faca debaixo
da cadeira. O outro David continuava a soluçar incontrolavelmente.
Minha mente girava em volta de questões sem respostas. Quem colocou isso
aqui e como sabiam meu nome? Sem mencionar o fato de que eu estava
ajoelhado no chão frio e também estava sentado naquela cadeira,
soluçando e pedindo para não ser machucado por mim mesmo. Isso tudo era
muito para processar. A casa e a gerência estavam brincando comigo esse
tempo todo. Meus pensamentos, por alguma razão, foram para Peter, e se
ele chegou tão longe ou não. E se ele chegou, se ele conheceu um Peter
Terry soluçando nesta cadeira, se balançando para frente e para trás. Eu
expulsei esses pensamentos da minha cabeça, eles não importavam. Eu
peguei a faca debaixo da cadeira e imediatamente o outro David se calou.
"David," ele disse na minha voz, "o que você pensa que vai fazer?"
Me levantei do chão e apertei a faca na minha mão.
"Eu vou sair daqui."
David
continuava sentado na cadeira, mas estava bem calmo agora. Ele olhou
pra mim com um sorriso fraco. Eu não sabia se ele iria rir ou me
estrangular. Lentamente ele se levantou da cadeira e ficou de frente
para mim. Era estranho. Sua altura e até a maneira que ele estava eram
iguais a mim. Eu senti o cabo de borracha da faca na minha mão e apertei
ela mais forte. Eu não sabia o que planejava fazer com isso, mas sentia
que eu ia precisar dela.
"Agora" sua voz era um pouco mais
profunda que a minha. "Eu vou te machucar. Eu vou te machucar e eu vou
te manter aqui" Eu não respondi. Eu apenas o ataquei e o segurei no
chão. Eu tinha montado nele e olhei para baixo, faca apontada e
preparada. Ele olhou para mim apavorado. Era como se eu estivesse
olhando para um espelho. E então, o zumbido retornou, baixo e distante,
mas ainda assim eu o sentia no meu corpo. David olhou mim e eu olhei
para mim mesmo. O zumbido foi ficando mais alto, e eu senti algo dentro
de mim se romper. Com apenas um movimento, eu enfiei a faca na marca em
seu peito e rasguei. A escuridão inundou o quarto, e eu estava caindo.
A
escuridão em volta de mim era diferente de tudo que eu já tinha
experimentado até aquele ponto. O Quarto 3 era escuro, mas não chegou
nem perto dessa que tinha me engolido completamente. Depois de um
tempo, eu não tinha nem mais certeza se continuava caindo. Me sentia
leve, coberto pela escuridão. E então, uma tristeza profunda veio até
mim. Me senti perdido, deprimido, suicida. A visão dos meus pais entrou
na minha mente. Eu sabia que não era real, mas eu tinha visto aquilo, e a
mente tem dificuldades em diferenciar o que é real e o que não é. A
tristeza só aumentava. Eu estava no quarto 9 pelo que parecia dias. O
quarto final. E era exatamente o que isso era, o fim. A Casa Sem Fim
tinha um final, e eu tinha alcançado isso. Naquele momento, eu desisti.
Eu sabia que eu estaria naquele estado pra sempre, acompanhado por nada
além da escuridão. Nem o zumbido estava lá para me manter são. Eu tinha
perdido todos os sentidos. Não conseguia sentir eu mesmo. Não conseguia
ouvir nada, a visão era inútil aqui, e eu procurei por algum gosto na
minha boca e não achei nada. Me senti desencarnado e completamente
perdido. Eu sabia onde eu estava. Isso era o inferno. O Quarto 9 era o
inferno. E então aconteceu. Uma luz. Uma dessas luzes estereotipadas no
fim do túnel. Então eu senti o chão vir até mim, eu estava em pé. Depois
de um momento ou dois para reunir meus pensamentos e sentidos, eu andei
lentamente em direção a essa luz.
Assim que eu me aproximei da
luz, ela tomou forma. Era uma luz saindo da fenda de uma porta, dessa
vez sem nenhuma marca. Eu lentamente andei através da porta e me
encontrei de volta onde eu comecei, no lobby da Casa Sem Fim. Estava
exatamente como eu deixei. Continuava vazia, continuava decorada com
enfeites infantis de
Halloween.
Depois de tudo o que aconteceu aquela noite, eu continuava desconfiado
de onde eu estava. Depois de alguns momentos de normalidade, eu olhei em
volta tentando achar qualquer coisa diferente. Na mesa estava um
envelope branco com o meu nome escrito nele. Muito curioso, mas ainda
assim cauteloso, juntei coragem para abrir o envelope. Dentro estava uma
carta escrita à mão.
David Williams,
Parabéns! Você chegou ao final da Casa Sem Fim! Por favor, aceite esse prêmio como um símbolo da sua grande conquista.
Da sua eterna,
Gerência
Junto com a carta, tinham cinco notas de 100 dólares.
Eu
não conseguia parar de rir. Eu ri pelo que pareceram horas. Eu ri
enquanto andava até o carro e ri enquanto dirigia pra casa. Eu ri
enquanto estacionava o carro na minha garagem, ri enquanto abria a porta
da frente da minha casa e ri quando vi um pequeno 10 gravado na
madeira.